Compartilhe esse conteúdo

IA já consegue clonar vozes e cria um novo risco para os condomínios

IA já consegue clonar vozes e cria um novo risco para os condomínios

O telefone toca.

Do outro lado, aparentemente é a voz do síndico:

“Preciso que faça este Pix agora. Depois explico.”

A entonação parece correta. A forma de falar também.

Mas pode não ser ele.

Ferramentas de inteligência artificial tornaram possível gerar áudios artificiais muito convincentes a partir de registros de voz encontrados em vídeos, redes sociais e outras fontes.

Em março de 2026, a Anatel lançou uma campanha nacional alertando especificamente para deepfakes capazes de reproduzir vozes, rostos e comportamentos de pessoas reais com alto grau de realismo para aplicar golpes e obter informações ou dinheiro.

O Banco Central também orienta a população a confirmar pedidos de transferência por outro meio, destacando que vídeos e áudios produzidos com IA já podem simular voz e imagem de conhecidos.

Para condomínios, isso cria um problema específico.

O criminoso não precisa invadir o banco

Ele precisa convencer alguém.

Imagine uma administradora receber um áudio aparentemente do síndico solicitando pagamento urgente.

Ou o síndico receber mensagem de um suposto fornecedor dizendo que a conta bancária mudou.

Ou ainda um funcionário da portaria receber uma ligação imitando alguém conhecido da administração.

A fraude passa a atacar o processo humano.

Por isso, não adianta apenas ter antivírus e senha forte.

É preciso ter procedimento.

Áudio não deveria autorizar pagamento

O primeiro princípio é simples:

Nenhuma movimentação extraordinária deveria ser autorizada exclusivamente por mensagem, ligação ou áudio.

Uma solicitação urgente de pagamento precisa ser confirmada em outro canal previamente definido.

Se o pedido chegou pelo WhatsApp, confirme por ligação utilizando o número que já constava no cadastro — não o número fornecido na própria mensagem.

Essa lógica é conhecida como validação por segundo canal.

Crie a regra dos dois responsáveis

Valores acima de determinado limite podem exigir aprovação de duas pessoas.

Por exemplo:

o síndico solicita;

a administradora valida;

ou o conselho confirma.

A definição concreta depende da estrutura do condomínio.

O importante é impedir que uma única mensagem resulte imediatamente em transferência de dinheiro.

Quanto maior o valor, maior deveria ser a barreira de validação.

Cuidado com a palavra “urgente”

Golpes financeiros exploram pressão psicológica.

“Pague agora.”

“O fornecedor vai interromper o serviço.”

“Não consigo falar por telefone.”

“Estou entrando em uma reunião.”

“Depois mando a nota.”

A urgência reduz o tempo de análise.

Por isso, pedidos que tentem impedir a confirmação deveriam produzir exatamente o efeito oposto: mais verificação.

O boleto falso também ficou mais sofisticado

Em setembro, análises jurídicas e publicações do setor voltaram a alertar para boletos condominiais visualmente idênticos aos verdadeiros, mas com dados de pagamento adulterados.

Antes de qualquer pagamento, é fundamental conferir o beneficiário apresentado pelo banco.

Não basta olhar o logotipo impresso no documento.

Quem importa para a transferência é quem efetivamente receberá o dinheiro.

E se o condomínio cair no golpe?

A primeira providência é comunicar imediatamente a instituição financeira.

Em operações via Pix, a rapidez pode ser importante para a tentativa de bloqueio e recuperação dos recursos conforme os mecanismos existentes.

O Banco Central também orienta a vítima a registrar Boletim de Ocorrência e guardar provas do golpe.

Mensagens, números utilizados, comprovantes, e-mails e gravações devem ser preservados.

A nova senha pode ser uma pergunta humana

Existe ainda uma solução simples para equipes que lidam frequentemente com pagamentos.

Administradora, síndico e responsáveis podem combinar uma informação de confirmação que nunca seja enviada em grupos, e-mails ou redes sociais.

Mas isso não substitui controles financeiros e dupla aprovação.

A principal mudança de comportamento é compreender que reconhecer uma voz já não prova necessariamente quem está falando.

Durante décadas, ouvir alguém conhecido ao telefone parecia suficiente.

Com a inteligência artificial, deixou de ser.

Nos condomínios, o novo protocolo precisa partir de uma regra simples:

confie na pessoa, mas confirme a operação.

SINDICOND — informação também é uma ferramenta de segurança.

Mais notícias