Compartilhe esse conteúdo

O que o Brasil pode aprender com outros países

O que o Brasil pode aprender com outros países

Os condomínios deixaram de ser apenas espaços residenciais administrados por regras internas, assembleias e manutenção predial. Em diferentes países, eles passaram a ocupar o centro de debates sobre sustentabilidade, mobilidade elétrica, envelhecimento das edificações, locações de curta temporada, eficiência energética, segurança estrutural e novas responsabilidades dos moradores e gestores.

Essa transformação não acontece apenas no Brasil. Na Europa, a pauta está fortemente ligada à redução do consumo de energia dos edifícios. Na Ásia, o desafio envolve prédios cada vez mais antigos, carros elétricos e soluções tecnológicas para grandes centros urbanos. Na América do Norte, os fundos de reserva, inspeções estruturais e carregadores para veículos elétricos já entraram na rotina de muitos condomínios. Na África, a energia solar tem ganhado força diante da instabilidade no fornecimento elétrico. Na Oceania, os apartamentos em regime de “strata” enfrentam discussões intensas sobre defeitos construtivos, custos de manutenção e adaptação climática.

O ponto em comum é claro: a vida em condomínio está ficando mais técnica, mais regulada e mais estratégica. O síndico moderno, seja no Brasil ou fora dele, precisa olhar para o prédio não apenas como uma estrutura física, mas como um organismo coletivo que consome energia, gera custos, exige planejamento, valoriza ou desvaloriza patrimônios e precisa se adaptar a mudanças ambientais, legais e comportamentais.

Na Europa, um dos movimentos mais fortes vem da eficiência energética dos edifícios. A União Europeia mantém uma diretriz específica sobre desempenho energético das construções, com medidas voltadas à redução do consumo, renovação de imóveis antigos e descarbonização do setor de edificações. Isso impacta diretamente prédios residenciais, condomínios e comunidades de proprietários, especialmente em países com grande quantidade de edifícios antigos.

Um exemplo importante vem da Espanha. A reforma da legislação de propriedade horizontal passou a dar mais poder às comunidades de proprietários para controlar a atividade de aluguel turístico em edifícios residenciais. Desde 2025, os imóveis destinados à locação de curta temporada passaram a depender de aprovação expressa da comunidade, reforçando uma discussão que também interessa aos condomínios brasileiros: até que ponto plataformas de hospedagem podem alterar a segurança, o sossego, a circulação de pessoas e a finalidade residencial de um edifício?

Esse caso espanhol mostra uma tendência que pode crescer no Brasil: o condomínio como espaço de controle coletivo sobre usos que afetam a vida comum. O debate não é apenas jurídico. Ele envolve convivência, portaria, controle de acesso, seguro, responsabilidade civil, barulho, rotatividade de pessoas e valorização imobiliária. Em cidades turísticas ou regiões com grande procura por hospedagem temporária, a discussão tende a se tornar cada vez mais presente.

Na América do Norte, o Canadá oferece outro exemplo relevante. Guias recentes sobre carregamento de veículos elétricos em edifícios multifamiliares tratam especificamente de condomínios, conselhos administrativos, incorporadoras e gestores prediais. O tema envolve planejamento elétrico, divisão de custos, tecnologia de gerenciamento de carga e decisões coletivas para tornar os prédios preparados para a mobilidade elétrica.

Essa tendência dialoga diretamente com o futuro dos condomínios brasileiros. À medida que os veículos elétricos se tornam mais presentes, as garagens deixam de ser apenas áreas de estacionamento e passam a exigir infraestrutura técnica. A instalação de carregadores envolve capacidade da rede elétrica, segurança contra sobrecarga, medição individualizada, rateio de despesas, aprovação em assembleia, responsabilidade pela manutenção e critérios para impedir que um benefício individual gere risco coletivo.

Ainda na América do Norte, há uma segunda tendência importante: a preocupação com fundos de reserva e manutenção estrutural. Em províncias canadenses, como Quebec, mudanças regulatórias passaram a exigir estudos de fundo de reserva e maior planejamento financeiro para grandes reparos e substituições futuras em condomínios. Isso reforça uma lição central: condomínio que não planeja manutenção hoje pode transformar pequenos problemas em grandes cobranças amanhã.

Na Ásia, o Japão chama atenção pelo envelhecimento dos condomínios. O país aprovou mudanças legais em 2025, com vigência a partir de abril de 2026, para facilitar a gestão e a revitalização de edifícios antigos em regime de propriedade compartilhada. Entre os objetivos estão acelerar decisões sobre reconstrução, lidar com proprietários ausentes ou de difícil localização e enfrentar o crescimento de prédios deteriorados.

O caso japonês é especialmente relevante para o Brasil porque muitas cidades brasileiras também possuem edifícios antigos que exigem modernização elétrica, hidráulica, estrutural e de acessibilidade. O problema não está apenas na idade da construção, mas na dificuldade de aprovar obras caras, convencer moradores, formar caixa, lidar com inadimplência e tomar decisões coletivas em prédios com diferentes perfis econômicos. A experiência japonesa mostra que a longevidade dos condomínios depende de regras claras, planejamento de longo prazo e capacidade de decisão.

Outro exemplo asiático vem de Singapura, onde a mobilidade elétrica passou a ser tratada como pauta condominial. O governo reduziu o quórum de aprovação para instalação de carregadores em condomínios, desde que respeitadas determinadas condições contratuais e financeiras. Essa mudança mostra como governos podem destravar a modernização de edifícios ao simplificar decisões coletivas, especialmente quando a infraestrutura beneficia o futuro da cidade.

Na África, a África do Sul apresenta uma realidade muito concreta: condomínios e empreendimentos em regime de “sectional title” têm buscado energia solar como resposta ao aumento dos custos e à instabilidade do fornecimento elétrico. Guias locais apontam que esses empreendimentos estão avaliando diferentes modelos de implantação, financiamento e gestão da energia solar em áreas comuns ou unidades individuais.

Esse exemplo é importante porque mostra que energia solar em condomínio não é apenas uma pauta ambiental. Ela também é uma pauta de segurança operacional e previsibilidade financeira. Em edifícios residenciais, sistemas fotovoltaicos podem ajudar a reduzir gastos com áreas comuns, iluminação, bombas, portões, elevadores e equipamentos essenciais. No entanto, também exigem regras sobre propriedade dos equipamentos, manutenção, seguro, responsabilidade técnica, uso da cobertura e rateio dos benefícios.

Na América do Sul, a Argentina oferece uma experiência interessante no uso comunitário da energia solar. Em Buenos Aires, projetos sociais passaram a usar soluções solares para enfrentar a pobreza energética, especialmente em regiões vulneráveis com dificuldade de acesso a serviços básicos. Embora o contexto seja diferente do condomínio tradicional, a lógica é aplicável: a energia renovável pode ser pensada como solução coletiva, capaz de reduzir custos, aumentar autonomia e melhorar a qualidade de vida.

Para os condomínios brasileiros, essa tendência pode ser observada sob duas frentes. A primeira é a geração de energia para áreas comuns, com foco em economia. A segunda é a criação de soluções compartilhadas para ampliar eficiência, reduzir desperdícios e aumentar a resiliência do edifício diante de oscilações de tarifa, crises energéticas e novas exigências ambientais.

Na Oceania, a Austrália traz uma discussão muito forte sobre prédios em regime de “strata”, modelo semelhante ao condomínio em diversos aspectos. Relatórios e estudos recentes apontam preocupação com sustentabilidade, adaptação climática, defeitos construtivos e capacidade dos edifícios residenciais de suportar pressões ambientais crescentes. Um material da Strata Community Association de Victoria destaca que muitos edifícios de apartamentos existentes não estão preparados para pressões climáticas atuais e futuras.

Além disso, notícias australianas vêm mostrando o impacto financeiro de cobranças extraordinárias elevadas para reparos, defeitos e adequações de segurança em edifícios residenciais. Em alguns casos, proprietários foram surpreendidos por valores muito altos após a compra de imóveis em prédios com problemas estruturais ou de manutenção.

A lição australiana é direta: transparência predial virou fator de proteção patrimonial. Comprar, morar ou administrar um condomínio sem conhecer a real situação do prédio é um risco crescente. Inspeções, laudos, planos de manutenção, fundos adequados e comunicação clara com os moradores deixam de ser burocracia e passam a ser instrumentos de preservação do patrimônio.

Quando essas experiências internacionais são observadas em conjunto, é possível identificar algumas tendências globais que também devem ganhar força no Brasil. A primeira é a eletrificação dos condomínios, especialmente com carregadores para veículos elétricos. A segunda é a eficiência energética, com reformas, automação, iluminação inteligente, energia solar e equipamentos mais econômicos. A terceira é a governança financeira, com fundos de reserva mais robustos e previsibilidade para obras futuras. A quarta é a segurança estrutural, com inspeções, laudos e manutenção preventiva. A quinta é o controle sobre novos usos do espaço residencial, como locações de curta temporada, delivery, circulação de visitantes e serviços digitais. A sexta é a adaptação climática, com prédios preparados para calor extremo, chuvas intensas, alagamentos, falta de energia e maior demanda por conforto ambiental.

O Brasil já sente parte dessas mudanças. Condomínios discutem instalação de carregadores elétricos, geração solar, modernização de elevadores, portarias remotas, controle de acesso, obras de acessibilidade, manutenção de fachadas, segurança contra incêndio e uso das unidades para locação temporária. A diferença é que, em muitos países, esses temas já estão sendo incorporados com mais força à legislação, ao planejamento urbano e às exigências de mercado.

Para síndicos, administradoras e condôminos, a principal mensagem é que o futuro dos condomínios será cada vez menos improvisado. A gestão condominial precisará ser mais preventiva, documentada, transparente e orientada por dados. O síndico que apenas resolve problemas imediatos tende a ficar sobrecarregado. Já o síndico que planeja, comunica, antecipa riscos e entende tendências consegue proteger melhor o patrimônio coletivo.

Em um cenário global de mudanças rápidas, os condomínios brasileiros podem aprender com o que já acontece fora do país. Da Espanha, vem o alerta sobre o impacto das locações temporárias na vida coletiva. Do Canadá e de Singapura, vem a preparação para os veículos elétricos. Do Japão, vem a preocupação com prédios antigos e dificuldade de decisão em comunidades de proprietários. Da África do Sul e da Argentina, vem a força da energia solar como solução coletiva. Da Austrália, vem o exemplo da importância da manutenção, dos fundos de reserva e da transparência sobre defeitos prediais.

Essas experiências mostram que condomínio não é apenas moradia. É infraestrutura urbana, patrimônio familiar, ambiente de convivência, espaço de consumo energético e unidade econômica coletiva. Por isso, acompanhar tendências internacionais não é apenas curiosidade: é uma forma de preparar os condomínios brasileiros para os desafios que já começaram a chegar.

 
 
 

Mais notícias