O Condomínio Que Envelhece Junto Com os Seus Moradores e Não Percebe
Existe uma transformação demográfica acontecendo dentro dos condomínios brasileiros que não aparece nas atas de assembleia, não está prevista no orçamento e raramente entra na pauta de nenhuma reunião. Os prédios estão envelhecendo. Não a estrutura — os moradores. E a velocidade com que isso está acontecendo em cidades como Brasília, São Paulo e Curitiba é suficiente para transformar um condomínio projetado para famílias jovens em uma comunidade onde a maioria das unidades é ocupada por pessoas acima dos 60 anos — sem que nenhuma adaptação tenha sido feita para acompanhar essa mudança.
O Brasil é o país que mais envelhece na América Latina. A projeção do IBGE indica que, em 2050, um em cada quatro brasileiros terá mais de 65 anos. Nos condomínios, esse processo já está em curso e suas consequências práticas são concretas: elevadores que precisam de manutenção mais rigorosa porque são a única opção de mobilidade para moradores com dificuldade de locomoção; rampas e corrimãos que deixaram de ser item de conforto e passaram a ser questão de segurança; áreas de lazer que não recebem uso porque foram projetadas para crianças e adolescentes que cresceram e saíram; e uma demanda crescente por redes de apoio interno que nenhum regimento interno foi desenhado para organizar.
A questão não é apenas estrutural. É de convivência e de gestão. O morador idoso que vive sozinho e passa um longo período sem contato com ninguém na portaria representa um risco real que o síndico não foi formalmente capacitado para endereçar — mas que, na prática, acaba respondendo quando algo acontece. Condomínios em Brasília já começaram a incorporar protocolos de verificação de bem-estar para moradores em situação de vulnerabilidade, inspirados em modelos europeus de habitação para idosos. Não é assistencialismo — é gestão de risco e qualidade de vida comunitária.
O condomínio que mapear hoje o perfil etário dos seus moradores, que identificar quais adaptações de acessibilidade são urgentes e quais podem ser planejadas, e que incluir o envelhecimento da sua comunidade como variável do planejamento de médio prazo, vai enfrentar esse processo com organização. O que não fizer isso vai descobrir as consequências uma a uma, sempre tarde demais para agir com custo e conflito menor.