Terremotos no estado de São Paulo: o que a ciência diz e como os condomínios podem se preparar
Nos últimos tempos, os noticiários têm dado grande espaço a terremotos devastadores em países como Chile, Venezuela, Filipinas e Japão. E, nos verões recentes, os próprios moradores do estado de São Paulo já sentiram tremores provocados por abalos ocorridos na cordilheira dos Andes, a milhares de quilômetros daqui — além de conviver com chuvas extremas e deslizamentos de terra. A pergunta que chega aos escritórios dos síndicos é inevitável: será que um grande terremoto pode acontecer aqui? E o que os condomínios devem fazer?
Antes de tudo, a boa notícia: a resposta da ciência é clara e tranquilizadora — e ela será explicada a seguir com base em fontes oficiais do governo federal, do governo do estado de São Paulo e da literatura científica mais respeitada do país. Mas há também uma lição prática que todo síndico precisa guardar: o perigo que mais ameaça os condomínios paulistas não vem de baixo da terra — vem de cima, com as chuvas. E contra esse perigo, a prevenção faz toda a diferença.
São Paulo está em cima de uma placa tectônica? Sim — mas no lugar certo
A crosta terrestre é formada por grandes placas rígidas que se deslocam alguns centímetros por ano. A quase totalidade dos grandes terremotos do planeta acontece justamente nas bordas dessas placas, onde elas se chocam ou se afastam — é o caso do Chile, do Japão e do Círculo de Fogo do Pacífico, região responsável por cerca de 90% dos abalos mundiais.
O Brasil, como explica o Serviço Geológico do Brasil (SGB/CPRM), órgão federal de referência, está no interior da Placa Sul-Americana, a mais de 2.500 km da borda tectônica ativa mais próxima, no Chile. Portanto, o estado de São Paulo não está sobre uma borda de placa tectônica: está no coração da placa, em uma das faixas mais estáveis do globo.
“Como o Brasil está na Placa Sul-Americana e esta se choca com outra placa na região da Cordilheira dos Andes, fora do nosso território, estamos livres de terremotos muito fortes, registrando apenas os intraplaca.” — SGB/CPRM
Os tremores que ocorrem dentro das placas, chamados de intraplaca, são rasos e de magnitude baixa a moderada. São eles que a Rede Sismográfica Brasileira (RSBR), operada pelo Centro de Sismologia da USP em parceria com o Observatório Sismológico da UnB, monitora em tempo real, 24 horas por dia. No Brasil inteiro, a média é de cerca de 20 sismos por ano acima de magnitude 3,0 — intensidade que raramente causa qualquer dano. Terremotos acima de magnitude 7,0, capazes de destruição em massa, ocorrem aqui numa frequência estimada de um a cada 500 anos.
E o que realmente ameaça os condomínios?
Se o risco sísmico é baixo, por que falar em prevenção? Porque outro tipo de tragédia natural é muito mais presente no nosso dia a dia: chuvas extremas, deslizamentos e desmoronamentos. E é aqui que mora o verdadeiro alerta para os condomínios. A Operação SP Sempre Alerta – Chuvas 2025/2026, conduzida pela Defesa Civil do estado, contabilizou 21 mortes até março de 2026, sendo 11 por deslizamentos de terra. O risco tectônico, por contraste, não registrou nenhuma vítima no estado. É justamente por isso que a estratégia certa é manter a calma em relação aos tremores — e agir com firmeza sobre a prevenção dos riscos que já nos demonstraram, todos os verões, a sua força.
O que já aconteceu por aqui?
O maior terremoto da história do estado de São Paulo ocorreu na madrugada de 27 de janeiro de 1922: magnitude 5,1, epicentro entre Espírito Santo do Pinhal e São João da Boa Vista, sentido num raio de 450 km. Rachou paredes na capital, derrubou cimalhas e assustou a cidade inteira. Segundo o geofísico Marcelo Assumpção, da USP, líder da sismologia brasileira, um evento dessa magnitude naquela região tem recorrência estimada de cerca de 400 anos.
Nos últimos anos, os episódios registrados foram muito mais modestos e nenhum causou dano estrutural: o tremor de magnitude 4,0 no litoral sul em junho de 2023 (Iguape), os pequenos abalos de magnitude 2 a 2,3 no noroeste do estado, e os reflexos dos grandes terremotos chilenos sentidos em prédios altos da capital em 2024 e 2026. Por que sentimos tanto os abalos chilenos aqui? A Defesa Civil do estado explica: a bacia sedimentar em que se apoia a capital paulista amplifica as ondas sísmicas à distância — a sensação é real, mas a ruptura geológica nunca aconteceu perto de nós, e a chance de dano estrutural é “muito pouco provável”, nas palavras do próprio órgão.
O Banco Mundial, em sua ferramenta oficial de avaliação de riscos (ThinkHazard), classifica o perigo sísmico no estado de São Paulo como muito baixo: menos de 2% de chance de tremor potencialmente danoso nos próximos 50 anos.
O que o síndico deve fazer? O checklist da prevenção
Conhecer os riscos é o primeiro passo — agir sobre eles é o segundo. O SINDICOND recomenda aos síndicos e administradores a adoção de seis frentes de prevenção.
1. Conheça o terreno do seu condomínio. Verifique se há áreas de risco mapeadas pelo Instituto Geológico de SP ou pela prefeitura (encostas, taludes, cortes de barranco). Condomínios sobre ou sob encostas instáveis merecem avaliação de um engenheiro geotécnico — especialmente antes dos verões chuvosos.
2. Cuide da estrutura. Institua inspeções periódicas conforme a norma ABNT NBR 16747, com atenção a fissuras, recalques, muros de arrimo e sistemas de drenagem de águas pluviais. Edifícios bem conservados resistem melhor a qualquer evento — seja um tremor, seja uma chuva extrema.
3. Tenha um plano de emergência. Rotas de fuga, ponto de encontro, contatos da Defesa Civil municipal e cadastro nos sistemas oficiais de alerta (CEMADEN e Defesa Civil de SP). Treine a equipe e realize simulações ao menos uma vez por ano.
4. Oriente os condôminos sobre tremores. As recomendações oficiais da Defesa Civil de SP são simples: manter a calma, afastar-se de janelas e objetos que possam cair, aguardar o tremor passar e, depois, inspecionar o imóvel. Divulgue esse protocolo nos murais e grupos do condomínio.
5. Fiscalize encostas e vegetação. Galerias desobstruídas, caixas de retenção limpas e muros de arrimo íntegros são a defesa mais eficaz contra deslizamentos — o risco que estatisticamente já cobra vidas no estado todos os verões.
6. Documente tudo. Registre diagnósticos, vistorias e treinamentos em atas e relatórios de gestão. A Lei Federal 12.608/2012, que criou a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil, reforça a responsabilidade compartilhada de gestão de riscos — e a boa documentação é a prova da diligência do síndico.
Vigilância informada, sem alarme
A conclusão do estudo é um convite à serenidade ativa: não há catástrofe tectônica à vista para o estado de São Paulo. Os pequenos tremores que sentimos são fenômenos naturais esperados, monitorados em tempo real pela ciência brasileira, e a probabilidade de um evento danoso nas próximas décadas é ínfima. A postura correta não é o pânico, mas a vigilância informada: cumprir normas, manter planos de emergência e investir primeiro na prevenção contra o perigo que já nos demonstrou, todos os verões, a sua força.
O SINDICOND continuará acompanhando as orientações oficiais da Defesa Civil do Estado de São Paulo (defesacivil.sp.gov.br) e do Centro de Sismologia da USP (moho.iag.usp.br) e trazendo aos associados informações atualizadas e fundamentadas. Prevenir não é alarmismo — é responsabilidade.
Matéria elaborada com base em fontes oficiais: Serviço Geológico do Brasil (SGB/CPRM), Defesa Civil do Estado de São Paulo (CEDEC), Instituto Geológico de SP, Centro de Sismologia da USP, Rede Sismográfica Brasileira, CEMADEN, Banco Mundial (ThinkHazard) e legislação federal (Lei nº 12.608/2012).